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A prisão da fama e a superação no ‘Yellow’, de Kang Daniel

Em uma das cenas que se repetem no clipe de “Antidote”, faixa título do seu EP “Yellow”, lançado em 13 de abril, Kang Daniel dança diante de uma multidão de figurantes com celular em riste, as telas iluminadas com a cor (amarelo) que batiza o disco. 

É a representação visual mais óbvia de um sentimento e uma narrativa que perpassam o EP, as atividades promocionais ligadas a ele e o próprio histórico do artista dentro da indústria do k-pop.

Em “Antidote”, Daniel canta sobre procurar a cura para um mal que faz “os seus olhos perderem o foco” e “sua respiração ficar ofegante”. As imagens, especialmente em ano de pandemia, são poderosas – e o vocal à flor da pele (o cantor disse que “cerrou os dentes” e tentou retratar uma “raiva explosiva” na gravação) só sublinha o desespero do narrador.

Na coreografia das cenas em grupo, enquanto isso, o clipe evoca a ideia de um show de marionetes enquanto os dançarinos manipulam, direcionam e restringem os movimentos de Daniel. Com um toque no rosto, eles mudam o lado para o qual o cantor está olhando; com uma puxada assertiva, o impedem de levantar o braço.

O estilo de dança do ex-Wanna One, assim como sua fisicalidade única no cenário do k-pop, se prestam fabulosamente a essa brincadeira representativa. Com 1,82m (e mais alguns centímetros na plataforma dos sapatos, com certeza), Daniel é todo braços e pernas, expansivo e expressivo em seus movimentos, esticando-se em uma tentativa de liberdade que é frustrada pelos passos rígidos da coreografia.

É preciso olhar para o restante do “Yellow” para ligar os pontos aqui. No refrão da faixa de abertura do disco, “Digital” (minha preferida pessoal), Daniel fala de “manter a sua dor escondida” e de “inimigos invisíveis” que se engajam em uma disputa com ele, travada em um “campo de batalha digital”.

Por cima da linha de baixo propulsiva e do vocal à beira do frágil (o oposto da interpretação raivosa de “Antidote”), esta é uma canção sobre as pressões da fama no século XXI, de culto a celebridade e paparazzi, de haters e de fãs obcecados que assustam igualmente. E o disco não demora para ligar esse sufoco da fama a outros mais amplos.

Em “Paranoia”, single lançado alguns meses antes do álbum, Daniel fala de demônios inescapáveis – justamente porque estão dentro dele mesmo. Em “Misunderstood”, ele é ainda mais direto, evocando com clareza o tema da saúde mental (“Minha mente é uma prisão, uma cadeia/ Sinto que estou preso em uma realidade terrível”) e lamentando que “a palavra ‘sinceridade’ está se tornando vazia”.

Imagens que evocam essa “prisão” na qual o cantor se retrata nas letras são comuns também dentro da divulgação do “Yellow”. Na performance de “Antidote” durante o showcase do disco, por exemplo, telões e pisos iluminados em padrões quadriculados enquadraram Daniel e seus dançarinos como se estivessem em uma cela – e não é à toa que essa cela seja justamente o palco.

O cantor e compositor de 24 anos, é claro, não é o primeiro idol a enfrentar problemas de saúde mental, e muito menos o primeiro a comentar sobre isso em sua arte. De fato, o bem estar psicológico de suas estrelas é uma problemática notória da indústria, que perdeu (e ainda perde, às vezes) nomes importantes para a depressão e o suicídio.

Trata-se de uma questão atrelada sim a contextos culturais (orientais especificamente, mas também globais) que a agravam – mas seria ingênuo descartar o papel desempenhado aqui pelas pressões adicionais da indústria, pelo ritmo de trabalho imposto por ela, pelo olhar vigilante da cultura como um todo, que busca nos idols uma espécie validação de comportamento impossível de encontrar em pessoas de carne e osso.

Em suma, não é difícil entender porque alguém como Daniel se sentiria “sufocado” nesse contexto, e o “Yellow” é uma expressão alarmantemente, refrescantemente genuína desse sentimento – e aqui é que se torna importante considerar a trajetória do artista dentro da indústria, marcada por uma particularidade: ele não está, de fato, inserido nela.

Em 2019, o cantor venceu um processo contra a Stone Music Entertainment (e o selo LM, com o qual tinha um contrato), uma das maiores companhias musicais da Coreia do Sul. Sem entrar em detalhes jurídicos, Daniel ganhou o direito de representar a si mesmo profissionalmente, e logo estabeleceu a Konnect Entertainment, agência dirigida por ele e dedicada exclusivamente (ao menos por hora) à sua carreira.

Assim, embora o sucesso esmagador de seus lançamentos o tornem uma força a ser reconhecida dentro do k-pop, Daniel não precisa atender à demanda de uma companhia focada no gerenciamento em massa de diferentes artistas, e portanto (até naturalmente) mais cautelosa quanto às mensagens que pode passar, e mais estabelecida em padrões que podem não funcionar para todo mundo. A individualidade dele, como artista, é literalmente o foco de tudo o que ele faz.

Falar das pressões da fama em um disco pode parecer uma aposta certa para perder a simpatia do público, que não pode saber como é ser uma celebridade, e tende a achar que as celebridades são sortudas demais em um sentido material para saírem reclamando por aí – mas, ao contrário disso, o pop como um todo carrega uma tradição longa de arte sobre as particularidades da fama que é apropriada e transformada pelo público.

Para exemplos “recentes”, basta olhar para o “The Fame Monster” de Lady Gaga e o “Rated R” de Rihanna (esse último, um parente musical muito próximo do “Yellow”). Feitos em momentos sombrios da vida de suas criadoras, os dois discos encontraram ressonância universal ao conectar conflitos particulares (entre celebridades e os flashes persistentes de fãs e paparazzi) com angústias cotidianas da própria condição humana. A fama como lente, como lupa, e não como pedestal.

Existe uma diferença de abordagem entre eles e o “Yellow”, é claro, que vem dos contrastes fundamentais entre ocidente e oriente. A forma como Daniel expressa os seus demônios aqui é mais direta, menos ofuscante – ele usa o pop, naquele sentido completo da palavra (não estou falando só do gênero musical, mas do procedimento artístico) como adereço para a sua música confessional, enquanto Gaga e Rihanna o usam como artifício. 

É evidente a separação: um (o adereço) revela mais, adiciona texto; outro (o artifício) obscurece, pinta a confissão em uma camada grossa de ironia ou enigma. E não há jeito certo ou errado de fazer pop, que fique claro – há apenas fazer ou não fazer, e há os prazeres distintos de desvendar os caminhos que cada artista toma quando faz.

Para o disco que é, a forma como faz pop, é brilhante que o “Yellow” termine com a faixa “Save U”, que busca desanuviar o clima pesado do restante das canções e retratar uma superação possível só pelo caminho da comunidade. Aqui, Daniel reverte o uso do “eu” e do “você”, antagônico e até violento nas letras anteriores do álbum, declarando, por cima de uma produção aérea, quase solar: “Eu estarei lá para te salvar”.

No showcase, o cantor entoou “Save U” diante de um telão iluminado com imagens de seus fãs, na tentativa de sublinhar e entender o aspecto saudável da relação por vezes parassocial entre idols e seus admiradores. A ideia é oferecer a música, a expressão artística, e a conexão entre indivíduos através dela, como, ao mesmo tempo: uma oferta de paz entre o entertainer e o entretido, inseridos na indústria da fama; e uma chave para abrir as prisões das quais, invariavelmente, somos todos reféns.

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