Análises, Lançamentos

NU’EST e a paixão (justa) do k-pop pelo gancho melódico

You’re the one that I want, eh-eh-eeh
The one that I need, eh-eh-eeh
Don’t wanna be free, eh-eh-eeh

Os primeiros versos de “Inside Out”, faixa título do álbum “Romanticize”, segundo do boy group NU’EST, imediatamente te absorvem para dentro do universo da música — e do disco. 

Sintetizadores pulsantes, graves, recortados, surgem para realçar os primeiros “eh-eh-eeh”, antes de se expandirem durante o restante da música, em uma certificação quase desnecessária (mas deliciosa) de que os versos não vão sair da cabeça do ouvinte por um bom tempo depois dos rápidos 3:17 de “Inside Out”.

No jargão da crítica, o nome dado a esse “eh-eh-eeh” de “Inside Out” é hook — ou gancho melódico, no bom português. É difícil definir rigidamente o que é um gancho melódico, mas é impossível não identificar um quando você começa a ouvir música pop com atenção. O gancho é, essencialmente, um pedaço de melodia repetido durante a música, por vezes uma modificação estratégica de palavras na letra (pense no “pa-pa-pa poker face” de Lady Gaga), simples o bastante para garantir que ela grude na sua mente. 

É o que você sai assobiando depois de ouvir uma música — e é ao que você se refere quando chama uma música de “chiclete”. 

O termo, gancho, é especialmente apropriado não só porque é ele que nos “fisga”, como ouvintes, mas também porque é ele que usamos para resgatar aquela música na memória quando queremos. Quando você pensa em “Hi High”, hit de 2018 do LOONA, você pode até acabar pensando no refrão, mas o seu primeiro ponto de referência para lembrar dele provavelmente é o “oooh-oooh-ooooh oooh-aah” dos versos que vêm um pouco antes. Esse é o gancho melódico.

O k-pop e o gancho melódico: amor verdadeiro

A estrutura do início de “Inside Out” lembra (e eu estou longe de ser o primeiro a apontar isso, a julgar por uma rápida pesquisa no Twitter) a de “Don’t Wanna Know”, hit da banda norte-americana Maroon 5 lançado em 2017 — mas é só a estrutura mesmo. Apesar de Adam Levine, como os membros do NU’EST, cantar os seus primeiros versos e estendê-los em três repetições, a melodia do “don’t wanna know, know-know-know” do Maroon 5 é diferente, a produção também, e os caminhos que a canção segue após o início muito mais.

Mais fundamental ainda nessa diferenciação, no entanto, é notar que “Don’t Wanna Know” é passado — e, mesmo nele, um ponto fora da curva — para o Maroon 5 e o pop ocidental, enquanto “Inside Out” é parte indissociável da narrativa presente do NU’EST e do k-pop.

Mesmo em 2020, um ano de ouro para o pop do eixo EUA-Reino Unido, o gancho melódico foi um coadjuvante de luxo, quando se dignou a aparecer. Veja o “Future Nostalgia” de Dua Lipa, talvez o álbum em que pensaremos, no futuro, para encapsular o que foi o pop ocidental de 2020. Ele é cheio de melodias “redondinhas”, que casam com o seu resgate seletivo da música disco para criar um pacote irresistível, mas nenhum dos seus grandes hits (“Don’t Start Now”, “Physical”) tem um gancho em destaque — o mais próximo que o álbum chega disso talvez seja o “yeah-yeah-yeah-yeah” de “Levitating”, mas ele nem serve como parte mais marcante da canção.

Enquanto isso, ouvir os lançamentos mais destacados de 2020 e 2021 no k-pop é ser brindado como uma coleção irrepreensível de ganchos melódicos — e é possível traçar uma linha claríssima entre eles e a importância de músicas como “Sorry, Sorry”, do Super Junior, e “Pinocchio”, do f(x), para o estabelecimento do k-pop como indústria dentro e fora da Coreia do Sul.

Ambas as canções são fundadas em ganchos. “Sorry, Sorry”, é possível argumentar, é toda ganchos, do refrão calcado em repetições ao “tam-tam-tam ta-ram-tam ta-ram-tam” que vem logo depois dele, que inclusive serve àquele propósito de primeira referência de memória do qual estávamos falando anteriormente. Já “Pinocchio”, por toda a merecida aura experimental do f(x), é magistral justamente por combinar eletropop e bubblegum (pense em uma parceria de Peaches com Britney Spears!) e ancorar o apelo da canção no “tara-tara-ta ta-ta-tchari-tchari-cha” do pós-refrão.

Em muitos sentidos, os ganchos do k-pop atual são tributos aos riscos corridos por esses e outros grupos das primeiras gerações — e também tentativas estendidas de capturar a mesma magia que eles capturaram, é claro. O “maeil-nan-ilhae nan-ilhae nan-ilhaeyo” de “Work Hard”, do DKB, é descendente direto dos muitos ganchos de “Sorry, Sorry”; e o “ta-ta ta-ra-ra ta-ta” de “Love so Sweet”, do Cherry Bullet (outra música que é toda ganchos), provavelmente não existiria sem “Pinocchio”.

É claro que não há só um tipo de gancho melódico. Eles podem ser repetições simples em refrões (vide “Cinema”, do CIX, ou “Drunk-Dazed”, do Enhypen); onomatopéias que ajudam a dar o tom antêmico aos grandes hits (impossível não pensar no início estimulante de “Beautiful Beautiful”, do ONF); ou até frases melódicas “emprestadas” de gêneros distintos para adicionar ao clima da canção (o “la-la la-la-la la-la-la la la” de “Paranoia”, de Kang Daniel, que evoca caixinhas de música e seu uso em filmes de terror).

O ponto é que o k-pop está sempre cheio de ganchos — e, apesar da revolta de alguns com as músicas “chicletes”, me parece que fã de (qualquer nacionalidade de) pop precisa rever se é fã mesmo de pop caso não consiga reconhecer a qualidade de uma composição que o faz assobiar uma frase melódica por aí mesmo quando não está ouvindo a canção. É parte fundamental da arte do pop a tentativa de fixar, imprimir a mensagem e a forma de uma criação na mente do público.

No caso específico do k-pop, no entanto, é importante reconhecer que o uso dos ganchos é também uma forma de expressar continuidade e construir tradição. A música pop não é nada quando não consegue, ou não se permite, se alimentar de si mesma. Isso é verdade desde os primórdios do pop como procedimento artístico, com um Andy Warhol que transformou bens de consumo em arte, e arte em bens de consumo.

Apesar de ser uma forma de arte tão concentrada em construir o futuro, o pop entende que só consegue fazer isso compreendendo, reconhecendo e utilizando as estruturas do passado a seu favor. Ou deveria entender, pelo menos. Nos últimos tempos, só o k-pop mesmo.

Abaixo, selecionei meus 12 ganchos melódicos favoritos que ouvi no k-pop até hoje. Elas dão uma aula de pop em 40 minutos:

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