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Review faixa a faixa: No ‘Romanticize’, o NU’EST cria um espaço livre entre fantasia e realidade

O grupo coreano NU’EST, na ativa desde 2012, lançou no último dia 19 de abril o seu segundo álbum completo, intitulado “Romanticize”. Trata-se do primeiro disco para o mercado coreano do grupo desde 2014, quando saiu o “Re: Birth”. 

Desde então, o “Romanticize” atingiu o segundo lugar das paradas da Coreia do Sul e já vendeu mais de 200 mil cópias no país. Abaixo, analisamos o álbum faixa a faixa, e damos uma sentença final sobre mais esse lançamento de JR, Aron, Baekho, Minhyun e Ren.

“Dress”

A faixa de abertura do “Romanticize” mostra perfeitamente como o NU’EST não tem pudor de lançar mão de recursos e referências nas doses e momentos em que acha necessário – não há um apego a um conceito só, os elementos vão se encaixando à música conforme ela demanda.

Basta ouvir como, aqui, a batida techno que marca o refrão (carregado em grande parte por Minhyun em seus “oh my gosh!” cantados em vários tons) aparece e desaparece ao bel-prazer da produção, substituída às vezes por um sintetizador rasgado que remete a um tipo de eletro alternativo que, no começo dos anos 2010, se infiltrou na música R&B de artistas como Usher e Taio Cruz.

“Dress” também introduz um motivo recorrente de fantasia e revelação que o NU’EST explora, liricamente, por todo o “Romanticize”. A conceituação do romance, aqui, é como um escape e uma aventura excitante, justamente por seu mistério diante da trivialidade da vida.

“Inside Out”

O membro Baekho, também produtor principal do disco, é presença dominante na faixa título “Inside Out”, e ele nem precisa cantar uma parcela tão significativa da música para isso. A sabedoria do artista, aqui, é se inserir em momentos chave para conduzir a canção. 

Os versos, por exemplo, são todos construídos em uma sequência que destaca os seus agudos contra os graves de outros membros, especialmente o líder e rapper principal JR. É, aliás, uma dinâmica de call and response (quando um vocal contrapõe e “responde” ao outro) que marca canções românticas há décadas — basta pensar em “Loverboy”, clássico de Mickey & Sylvia que embalou os pombinhos de “Dirty Dancing”.

O gancho do início de “Inside Out”, enquanto isso, é um ponto estrutural para o “Romanticize”. Apesar de a canção ser a segunda do álbum, é ela quem realmente introduz o clima de romance sofisticado, maduro, até deliberadamente pensado, que os integrantes do NU’EST e o seu time tentam expressar — e a primeira frase melódica que ouvimos nesse clima que vai ditar o restante do disco é o gancho.

Trata-se de uma música que mergulha no mistério do romance e da atração, que retrata o amor como uma mística que precisa ser aceita (“Estou ficando doente de amor/ Meu coração continua acelerando/ Não consigo parar, corro até você”). Por cima das melodias etéreas de synthpop da canção, que remetem ao trabalho naturalista de artistas nórdicas como Oh Land e Marlene, é fácil se deixar convencer pelo NU’EST e embarcar de vez nessa viagem.

“Don’t Wanna Go”

A faixa mais curta (3 minutos justos) do “Romanticize”, “Don’t Wanna Go” é também a de estrutura mais simples — tanto “Dress” quanto “Inside Out”, antes dela, se apoiaram em suas bridges extravagantes e variações melódicas surpreendentes entre os refrões.

Aqui, a batida entra e some no momento em que é previsível que ela entre e suma, enquanto o violão acústico se transforma em guitarra elétrica de maneira precisa para aumentar a intensidade da canção. É fácil ouvir nisso tudo uma referência pouco velada a outra linguagem recorrente do romance na música: a da balada pop rock.

“Eu não quero ir embora/ Não quero sentir sua falta”, canta o NU’EST no refrão de “Don’t Wanna Go”, remetendo às súplicas semelhantes de Steven Tyler em “Don’t Wanna Miss a Thing”, do Aerosmith. As duas canções apostam em linhas melódicas impactantes, dramáticas, para carregar suas mensagens desavergonhadamente, deliciosamente bregas.

Também é nessa faixa que a inclinação do grupo em confiar no membro Aron para introduzir as frases melódicas mais marcantes de cada canção fica clara. Ele é, sem dúvida, o melhor intérprete do NU’EST — o que é diferente de melhor cantor, vale frisar. Se potência e alcance são mais a praia de Baekho e Minhyun, é Aron quem melhor ancora as composições às suas próprias emoções, e, portanto, ao ouvinte.

“Black”

Apesar do gancho melódico descontraído, com os membros apresentando suas variações do estiloso “la-cha la-cha la-cha la-cha, I try” da letra, “Black” é também uma canção tensa, que aborda o sentimento final de excitação e medo antes de se jogar em algo novo. “Além da fronteira, baby/ Em meio a emoções crescentes/ Eu e você estamos acima das nuvens”, recita JR em um de seus raps.

Essa tensão é explicitada no baixo marcante da faixa, que a carrega para um território difuso de neo-soul — “Black” não ficaria desconfortável na tracklist de um disco de Janelle Monáe, camuflada em meio às muitas homenagens a James Brown e Prince que são tão caras à artista norte-americana.

O baixo só dá folga mesmo na excêntrica bridge de “Black”, estendida e quase orquestrada, em que os membros (Minhyun, especialmente, fornece uma base sólida para este pedaço da canção) cantam por cima de corais, sintetizadores distantes e toques de piano. É uma medida de drama bem-vinda a uma faixa construída em ricas contradições.

“Drive”

“Drive” é talvez a expressão mais simples, e mais eficiente, do que destaca o NU’EST como artista em meio ao cenário pop atual (e aqui falo do global mesmo, não só do coreano). 

A ideia é simples: construir um hit com pegada eletrônica partindo de um riff de violão acústico e uma batida relaxante. É o modus operandi que marca o eterno verão de artistas ocidentais como Charlie Puth, por exemplo. Ao invés de se acomodar na fórmula, no entanto, o NU’EST cria uma canção que cresce a cada transição, adicionando elementos que só fazem realçar a euforia da composição.

A guitarra sintetizada que é a força por trás do refrão explode de encontro com os versos sobre um amor realizado e alegre — mas que é ambas as coisas dentro de um contexto de gentileza e paciência. “Eu quero andar na mesma velocidade que você/ Não importa para onde vamos/ Se estiver tudo bem, não vou pisar no freio”, diz o grupo no refrão. Em “Drive”, o NU’EST expressa com maestria um tipo de liberdade nostálgica e capitalizável que muitos artistas pop tentam transformar em música, mas poucos conseguem (“Teenage Dream”, de Katy Perry, vem à mente como um dos acertos). 

Se, como os membros disseram durante o showcase do disco, a ideia do “Romanticize” era prover um escape, construir um universo mais romântico do que o real, este aqui é o momento em que o disco cumpre a sua missão, e sem deixar de dar um recado importante para os produtores pop por aí: às vezes, mais é mais.

“Earphone” (Minhyun Solo)

Minhyun é o dono do timbre com mais personalidade entre os integrantes do NU’EST. O suspiro de seus graves, quase roucos, e o cristalino de seus agudos, nunca “cheios” demais para não soarem apropriadamente sensíveis, carregam “Earphone”, a primeira das canções solo do “Romanticize”, com tranquilidade.

Esse carisma vocal também destaca as raízes folk-pop da canção, que emula o trabalho de cantoras-compositoras como Sara Bareilles e Vanessa Carlton — aqui, o foco é melódico e lírico, como no folk, mas o instrumental passeia por teclados e batidas sintetizadas, enquanto a estrutura permite firulas pop que tornam essa expressão mais palatável.

O “put on my earphone” repetido por Minhyun durante a canção, por exemplo, não é só adorável aos ouvidos, mas também sutilmente eficiente e assobiável como gancho. Um gancho singelo, é verdade, mas essa é mesmo a vibe da canção.

Em sua introspecção sobre a música como forma de conexão e reconciliação consigo mesmo e com os outros (“Será que as coisas podem melhorar/ Se você olhar dentro do meu coração?”), “Earphone” é uma criação encantadoramente delicada em um disco que propositalmente evita delicadezas.

“Need It” (Baekho Solo)

Difícil resistir à tentação de conectar “Need It”, o solo do produtor Baekho no “Romanticize”, ao trabalho recente de artistas como The Weeknd (especialmente as canções da mesma era de “Call Out My Name”), mas esse é justamente o truque que ela quer nos aplicar.

Por baixo dessa referência ao R&B climático e sensual moderno, “Need It” na verdade mira muito mais no som antigo do blues rock apoteótico, quase gospel, de um Jimi Hendrix ou um Jonny Lang — ambos, inclusive, ases da guitarra, instrumento que carrega a produção de “Need It”, junto a um pacote de cordas devidamente dramático.

Desfilando a sua potência vocal pela faixa, o membro do NU’EST cria uma história explosiva em que a dor é o caminho para a realização, o prazer e a transformação, sem fugir das implicações carnais e espirituais disso. “Quando as flores crescerem aqui de novo/ Trabalhos que são finalizados gradualmente/ No fim da dor, sou só eu que estou aqui”.

“Doom Doom” (JR solo)

Pela própria virtude de ser um rapper, e não um cantor, o líder JR cria a canção mais imprevisível do “Romanticize” quando se arrisca no solo. Sua “Doom Doom” tem uma estrutura nada convencional, colando frases melódicas declamadas em vocal sintetizado com versos de rap estilosos e pausas de dança inesperadas.

Quase surpreendentemente, esse “improviso” funciona muito bem. A ideia de colocar JR em um ambiente musical de techno, cheio de sintetizadores rasgados e batida industrial constante, influência que havia sido quase totalmente abandonada pelo disco após a faixa de abertura “Dress”, dá espaço para que ele deixe a sua marca na canção.

O líder do NU’EST cria aqui uma ode a um romance imaturo e “sujo”, sem a serenidade ou o desejo pulsante, delirante de seus colegas de grupo. Blindado por música eletrônica por todos os lados, ele declama que “uma flor que ainda não desabrochou não é perfeita, mas é mais bonita”. Nesse contexto, difícil não concordar com ele.

“Rocket Rocket” (Ren Solo)

Seguindo a deixa do seu colega de grupo, Ren mantém o “Romanticize” firmemente no techno no solo “Rocket Rocket”, que em muitos sentidos soa como uma evolução da faixa anterior — ou uma extrapolação da sua energia latente, mais “domada” na canção de JR do que aparece aqui.

De fato, todo o ponto de “Rocket Rocket” é a sua energia. Não há vale de intensidade nos 3:16 da canção, uma extravagância eletrônica até mesmo para os padrões do pop contemporâneo, que é pesadamente apoiado nesse gênero. Exagero que lembra, não por acaso, os do “Born This Way”, de Lady Gaga.

A força da produção não é aleatória, no entanto: carismático e dinâmico em seus vocais, Ren se sente à vontade aqui, e cria na letra um apelo à transcendência, à passagem para o próximo estágio (de um romance ou da vida como um todo). 

“Venha para a luz/ Feridas queimam, lágrimas voam da face/ Eu quero queimar tudo”, canta ele em certo momento. Intensidade apropriada para (mesmo aos 25 anos) o integrante mais novo do grupo.

“I’m Not” (Aron Solo)

Terceira balada do disco, “I’m Not” é também a que tem mais o sabor distinto e específico das baladas coreanas — sabor que vem de uma tradição melódica própria, sim, mas também de uma produção discreta, que privilegia a expressão emocional da canção.

É difícil ouvir esse tipo de coisa no pop ocidental, a não ser que você viaje algumas décadas para o passado, e encontre as baladas dos suecos do ABBA. Há, nas canções como “The Winner Takes It All” que se escondem pela discografia deles, um uso elegante de ferramentas que, nos hits mais dançantes do grupo, são posicionadas em outro contexto. É a mesma operação que o NU’EST faz aqui.

Aron, inclusive, foi esperto em compor uma música assim para o seu solo. Por cima dessa produção cuidadosa, as habilidades interpretativas do cantor coreano-americano se destacam ainda mais — aqui, sobra pouca dúvida do quanto ele é capaz de carregar as emoções de uma canção.

Encerrando o “Romanticize”, ele canta belamente sobre o encanto do momento, prometendo “desenhar um belo quadro de hoje todos os dias” e “gravar o seu nome a cada segundo da hora”. É uma comovente celebração do escape promovido pelo disco.

10 músicas, 5 artistas, 1 “Romanticize”

Como um todo, os instrumentais do “Romanticize”, limpos, deixam espaço mais amplo para que as emoções de cada canção (tanto as das letras quanto as das escolhas de produção) subam à superfície e trabalhem bem sua conexão com as estruturas, gêneros musicais e até narrativas que normalmente associamos ao romance na mídia. 

Notavelmente, há mais lugar para o silêncio (ele é tão parte da música quanto o som, vale lembrar) aqui do que habitualmente encontramos no k-pop, e o impacto dessa levada paciente é sentido no disco.

Adicione aí os tons calorosos e tecidos familiares que marcam os visuais desta era do NU’EST, especialmente nos figurinos usados pelos membros em sessões de foto e apresentações ao vivo (o jeans tricolor de Minhyun já é uma peça inesquecível), e você tem uma construção completa. 

O “Romanticize” é um disco permissivo, bem humorado e sincero em sua conexão com o próprio lado brega. Musicalmente expansivo, encontra um tom entre meditativo e autorreferente, esperto sobre as narrativas que reconhece e constrói — mas firmemente oposto à ideia de que precisa, por vergonha, contrapô-las com alguma formulação mais moderna e cínica.

Que bom. O NU’EST não tem nada do que se envergonhar.

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