StayC em cena de "K-Pop Evolution"
Análises

Transformando-a em esporte, o k-pop faz a música pop ser pop de novo

A série documental K-Pop Evolution, disponível gratuitamente pelo YouTube, dedica dois de seus capítulos aos bastidores da formação do que viria a ser o girl group StayC. Durante os episódios 5 e 6 da série, acompanhamos as vidas das futuras integrantes do grupo enquanto ainda eram trainees — ou seja, enquanto ainda se preparavam para estrear e passavam pela exigente (para dizer o mínimo) rotina que seleciona as “melhores” aspirantes a estrelas para de fato entrar na indústria.

Regimes extenuantes de ensaio, feedback brutalmente honesto de treinadores e produtores, ansiedade advinda da separação familiar, noites mal dormidas, pressão estética traduzida em dietas e padrões visuais que devem ser seguidos… A série não nos poupa do lado difícil, até abusivo, moralmente aprisionador, da indústria do k-pop – mas ela também abriu meus olhos, paradoxalmente, para algo que faz essa mesma indústria especial.

Em certo ponto desses capítulos, a jornalista Tamar Herman, que já cobriu k-pop para veículos como Billboard, Forbes e NBC News, reconhece que o processo coreano em que empresas e produtores lapidam talentos desde a juventude para transformá-los em estrelas é “estranho” para o público americano. 

“Aqui [no Ocidente], estamos acostumados com a noção de artistas que constroem o seu próprio sucesso, com talentos que são descobertos, não criados. Na Coreia, a ideia de que você pode criar uma estrela ainda está muito viva, e não há um grande estigma atrelado a ela”, diz Tamar, que ainda compara a dedicação irrestrita dos trainees às suas agendas com a cultura acadêmica do Oriente, que exige a busca por uma “perfeição” inalcançável.

a crítica musical coreana Kim Yoonha traça um paralelo, no mesmo episódio, entre idols e atletas. Eles “aperfeiçoam seus atributos” de forma excepcional durante os anos como trainees, diz ela — um contraste grande com a noção (falsa) do Ocidente de que talento é nato, e tentar lapidá-lo é limitante à expressão do indivíduo talentoso. Mas o que acontece quando você transforma arte em esporte?

Antes de qualquer coisa, é preciso reavaliar os conceitos ocidentais de arte e esporte. A indignação com a rotina exaustiva dos idols é justa, especialmente tendo em vista que tantos passam por problemas de saúde física e mental graves por causa dela. Mas não costumamos, como cultura, estender a mesma indignação a atletas que passam por treinamentos excessivos, ao ponto de prejudicar também suas integridades mentais e físicas, e sua habilidade de manter uma vida pessoal saudável para além do esporte.

Sacrificar-se pelo esporte é esperado — mais até, é a única forma de vencer (ao menos, vencer com consistência) dentro do conceito de esporte que construímos na contemporaneidade, onde os vencedores consistentes são quem celebramos. Sacrificar-se pela arte, por outro lado, só é visto com o mesmo romantismo no sentido de artistas que usam o sofrimento psíquico como fonte de inspiração (uma problemática diferente, que daria outro texto). Sacrificar-se para aperfeiçoar sua arte, ou para atender demandas sobre ela, não é visto, no Ocidente, com a mesma naturalidade estendida aos atletas.

Novamente: para além de como indivíduos, precisamos reavaliar esses conceitos como cultura, tanto deste lado do mundo quanto daquele. É por causa desses conceitos que abusos são tolerados na indústria do entretenimento e do esporte, que artistas e atletas são cobrados a seguirem códigos morais antiquados e absurdos, e que, consequentemente, perdemos vários tão cedo, e de forma tão trágica.

Reconhecido isso, no entanto, é preciso também considerar o que essa equalização entre arte e esporte significa para a arte em si – ir além do procedimento, e analisar o conteúdo. Porque eu argumentaria, correndo o risco de soar controverso, que essa cultura que move a indústria do k-pop é sem dúvida de uma moral aprisionadora (para os artistas), mas não de princípios artísticos aprisionadores (para a arte).

Praticar um esporte de forma profissional é essencialmente sobre tentar ser o melhor dentro de parâmetros pré-definidos, certo? Quando falo de parâmetros, falo de regras mesmo, normas que regem o jogo e (ao menos na teoria) não podem ser quebradas.

Fazer arte pop, em muitos sentidos, é algo semelhante. Lá nos anos 1960, o “pai do pop” Andy Warhol estabeleceu para si uma regra, um procedimento: em cada obra, ele “roubava” ícones culturais que significam algo dentro do complexo consumista americano, e os recontextualizava antes de jogá-los, novamente, para consumo. 

Artistas subsequentes fariam exatamente o mesmo com as obras do próprio Warhol e com outras, estabelecendo uma cadeia cada vez mais complexa de retroalimentação que é essencial para o pop. De certa forma, essa regra nunca foi quebrada — artistas apenas encontraram novas coisas para expressar, novos elementos para adicionar, formas sutis de fugir do molde, nos detalhes, sem deixar de usar o molde em si.

É o que Lady Gaga chamou uma vez de “elemento do crime”. No pop, você só é realmente bem-sucedido quando surpreende – e, para surpreender, é preciso violar sutilmente uma das regras não-escritas do próprio pop. Oras: não é possível quebrar regras se não houverem regras para serem quebradas.

Talvez justamente por haver tantas regras na indústria, o “elemento do crime” está por todo lado no (bom) k-pop.

A carreira solo de TAEMIN, por exemplo, é toda baseada em uma série de desafios ousados às regras da masculinidade oriental – uma brincadeira com a androginia absoluta de passos de dança e artigos de vestimenta que, mesclada às letras que (mais recentemente) peitam a obsessão e idolização do público, o colocam firmemente como um transgressor dentro da indústria. 

Mesmo assim, ou exatamente por isso, ele é um dos maiores ícones do k-pop atual. A boa arte pop tem o costume delicioso de se integrar ao mainstream, ao léxico cultural contemporâneo, mesmo quando o contrapõe e o ironiza abertamente. Essa é a magia do procedimento perpetuado por Warhol: ele cria, ou ao menos instiga, inspira, uma revolução de dentro para fora.

No “elemento de crime” também entra a música de postura mais agressiva de girl groups como o Everglow e o Dreamcatcher; o subtexto queer de literalmente centenas de lançamentos como “libidO” do OnlyOneOf (para citar um deste ano); o passeio casualmente anárquico entre jazz, bossa nova, hip hop e música eletrônica que artistas como IU, The 8 e Dvwn realizam em suas discografias; a sutil distorção de expectativas melódicas em refrões como o de “Lose”, de WONHO; e também de expectativas estruturais, em canções do NCT ou em “Black Mirror”, do Oneus. 

É estimulante ouvir essas quebras de molde (que criam novos moldes) com tanta frequência. Para quem ama música pop de verdade, testemunhar um cenário musical e artístico em plena transformação, o tempo todo, é um privilégio e um prazer – e, atualmente, é só o k-pop que está provendo esse estímulo.

Por aqui no Ocidente, ao invés disso, temos um cenário de auto expressão radical, que permite que artistas (muito talentosas!) como Ariana Grande, Rihanna, Taylor Swift, Billie Eilish e Olivia Rodrigo sigam seus primeiros instintos e mergulhem irrestritamente em seu(s) gênero(s) de preferência, dependendo do momento que vivem pessoal e artisticamente.

É uma situação de origens complexas (eu, particularmente, culpo a infiltração do indie no mainstream, lá no começo dos anos 2010), e que certamente é mais satisfatória para os fãs dos nichos em que cada uma dessas popstars escolhem adentrar. Fãs (até os mais dogmáticos) de folk podem curtir o Folklore, de Taylor, e fãs de R&B podem curtir o Positions, de Ariana – mas, de pop, os dois têm muito pouco.

No sétimo e último episódio de K-Pop Evolution, a série que despertou essa reflexão toda, acompanhamos os bastidores da gravação de um clipe do girl group Everglow. O mote dos 25 minutos do capítulo é mostrar o trabalho de equipe necessário para a produção de um M/V, o jogo constante entre a exigência de dedicação à arte e o respeito aos limites de cada artista, o cuidado para se encaixar nas demandas e normas da indústria, mas preservar um quê de expressão própria, de personalidade, de “elemento de crime”.

Assistir ao episódio, dando a ele a devida atenção, é uma experiência no mínimo reveladora. Ele desconstrói de forma irreversível a noção da arte como produto de uma única mente, e a reconstrói em uma perspectiva múltipla, uma conversa entre indivíduos e as culturas com as quais eles interagem, das quais eles têm consciência. É a desmistificação do autor, da visão egoísta da arte como expressão pessoal individual.

Aqui, arte é sobre quem recebe, sobre os limites em que essa pessoa vive, e como atingi-la, movê-la, expandir esses limites de alguma forma, mesmo sutil. É sobre nós, muito além de ser sobre eles – como a arte de Andy Warhol também pouco era sobre Andy Warhol, e muito era sobre quem vivia na época dele. Ao menos para este que vos fala, música pop é infinitamente mais interessante desse jeito.

Leia também:

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *