Análises

Revolução de um homem só: a carreira solo de TAEMIN é um dos textos fundamentais do pop contemporâneo

Músicos também produzem textos, e música também é narrativa. Na carreira de qualquer músico com qualquer medida de ambição artística, é possível encontrar histórias, testamentos culturais, sentenças pop expressadas em letras e em videoclipes, que é onde elas se tornam mais óbvias, mas também em performances ao vivo, escolhas de produção e composição (melodia e harmonia), personalização fashion. Mas fundamental, para os propósitos deste artigo, é notar o plural dessas histórias, testamentos e sentenças. 

Seja dividindo-as em álbuns ou períodos (como a trilogia das idades de Adele ou os capítulos da discografia do TXT), a maioria dos artistas contemporâneos conta histórias múltiplas, ainda que conectadas por uma sensibilidade singular, durante a sua carreira. E com isso não quero dizer só que narrativas em si se abrem e se fecham – não é só que o Green Day, por exemplo, falou de um grupo de personagens em American Idiot, e de outro no 21st Century Breakdown -, mas que as intenções do artista se transformam, e com elas o texto. O texto cultural, o que fica e impacta além da própria obra, o das entrelinhas.

Dá para contar nos dedos de uma mão os artistas contemporâneos que são capazes de manejar essa transformação de intenções, natural do próprio amadurecimento do sujeito que produz a arte, de uma forma que não leve a essas quebras de texto, que não o transforme em plural, em múltiplo. É um jogo complicado, que exige não só obstinação e talento, mas principalmente visão – porque, para que um texto cultural sobreviva e tenha relevância dessa forma, com uma “cauda longa”, ele precisa ser mais transformador, mais crucial para o zeitgeist, e (fundamentalmente) mais intrínseco ao artista como pessoa.

Em suma: ter um texto só é coisa de artista que cava mais fundo, sabe mais de si, e sente uma gana maior de se colocar no mundo, usando as partes de si que são capazes de transformá-lo de verdade. Lee Taemin é um desses artistas.

Falando com o corpo

Uma das consequências mais curiosas e bacanas dessa particularidade de TAEMIN é que qualquer ponto de sua carreira solo pode se tornar, com facilidade, um ponto de entrada perfeito para alguém que ainda não conhece a sua obra. Qualquer que seja o momento de TAEMIN que você acesse primeiro, a conexão é imediata e o disparo da narrativa que ele vem construindo com o passar dos anos é inevitável. Se você começa, é difícil parar.

Para mim, foi “Advice”, lançamento mais recente do cantor, uma culminação de referências e propostas lançada como um “até logo” astuto pouco antes de TAEMIN se alistar para o serviço militar obrigatório da Coreia do Sul. O MV da faixa tem o momento indelével da cultura pop de 2021, a cena que vai ficar marcada na memória cultural como definidora dele, a imagem que estaremos discutindo no futuro quando o assunto for este ano.

Cercado de dançarinos vestidos de vermelho e preto, um TAEMIN inteiro de branco levanta o braço direito até a altura da cabeça, olhando para a câmera em desafio, enquanto seu moletom se ergue para mostrar tatuagens que passou anos escondendo do público e um sports bra. A coreografia, misturando movimentos circulares e sutis (“femininos”) com passos geométricos e rápidos, baseados em ângulos agudos (“masculinos”), deságua em TAEMIN tirando o boné para revelar seu longo cabelo tingido de loiro nas pontas, e uma maquiagem de olho pesada e borrada. Ao fundo, ele canta: “Eu vou seguir os meus próprios conselhos”.

Eu genuinamente acredito, e a história da cultura pop está do meu lado, que com o tempo o sucesso meteórico de uma ou outra obra de arte passa a contar menos para o quanto ela realmente importa. As imagens que se imprimem na consciência coletiva não são sempre as que foram mais vistas em sua época, mas aquelas cuja força expressiva, cuja conexão com o cenário de onde saíram e o cenário mais amplo além dele, são maiores que as das outras. “Advice”, me parece óbvio, tem essa distinção.

Isso é verdade na primeira vez que qualquer pessoa dá play no MV, mas se torna ainda mais verdade uma vez que essa pessoa conhece a narrativa, o texto, em que ele está incluído. Uma vez que, fisgado pelo desafio de qualquer obra que seja sua primeira de TAEMIN, você adentra no mundo dele… e, eventualmente, chega em “Move”.

Lançada em 2017, como faixa título do segundo álbum completo de TAEMIN, “Move” é lembrada como uma grande pulverizadora de regras. No MV, o artista aparece cercado por um corpo de bailarinas inteiramente feminino, uma raridade para artistas homens no k-pop (e na música pop como um todo, sejamos sinceros) até hoje. Os passos do refrão estão entre os mais simples, mais sensuais, mais decoráveis, mas também mais brilhantemente impactantes, da história da indústria – e são seguidos de maneira idêntica tanto por TAEMIN quanto pelas dançarinas.

Assim como acontece em “Advice”, é uma coreografia inteira sobre o contraste entre poses “femininas” e “masculinas”, que deixa de lado a acrobacia por acrobacia e maximiza cada movimento por sua potência expressiva. Isso fica ainda mais óbvio no vídeo especial em que TAEMIN apresenta “Move” em um dueto hipnotizante com a dançarina Koharu, os dois oscilando várias vezes, em meros 3 minutos, entre quem usa passos mais expansivos e quem está à cargo de trazer sutileza e delicadeza para o quadro.

Não se trata de uma relação de dominador e dominado. “Move”, como tudo o que TAEMIN fez em sua carreira (ele tem, afinal, um texto), prospera na difusão dos holofotes, na simetria entre ele e seus bailarinos. Ele está sempre no centro das formações da coreografia, claro, mas os movimentos não estão ali para servir a ele. Não se trata da criação de um sex symbol, da construção de um ícone que quebra barreiras de gênero para o deleite do público contemporâneo progressista. Trata-se de dizer algo, de juntar forças expressivas plurais para inverter um paradigma de maneira muito mais potente do que ele poderia sozinho.

TAEMIN, que em sua atuação no grupo SHINee sempre se focou na dança, ressignificou, em sua trajetória solo, a função e o uso dela no k-pop. Em comentário em um dos vídeos de performance de “Press Your Number” no YouTube, um fã define esse aspecto melhor do que eu poderia: “Tudo o que ele faz irradia arte. Ele poderia estar rebolando ou sarrando no chão, e eu não veria isso como sexual – apenas artístico e lindo”.

Em uma trajetória que buscou dar face ao feminino e ao masculino, e à confusão deliciosa entre eles, com consciência absurda (uma das marcas do artista, especialmente em suas obras mais recentes, é o olhar direto para a câmera, traindo um propósito e uma intencionalidade inconfundíveis), TAEMIN encarnou uma sensualidade, uma sinestesia de corpo e mente, que foge obstinadamente do apelo puramente sexual.

Sua persona define, por meio da dança, uma angularidade única, nunca mais evidente do que nos figurinos folgados de “Want”; e um sentimentalismo genuíno, como no solo improvisado, e não coreografado, da suplicante “2 Kids”. Tudo isso dobrado dentro de um mesmo texto de reposicionamento de limites e barreiras, expressado por meio de imagens exponencialmente mais complexas e maduras.

E pode ser tentador, às vezes, dizer que com TAEMIN é tudo, sempre, sobre a dança – mas a verdade é que sua arte não termina aqui.

Falando com a música (e com a câmera)

O “arco” musical da carreira de TAEMIN é inextricável, obviamente, de suas expressões visuais – mas o mais divertido talvez seja identificar como o TAEMIN musical de Move ou Advice sempre esteve, ainda que talvez em uma versão menos sofisticada, no TAEMIN de Ace, sua estreia solo, lançada em 2014.

Basta olhar para “Pretty Boy”, meditação exploratória do que significa a masculinidade em um contexto contemporâneo. Na letra, TAEMIN desafia um “cara durão” a “relaxar os seus ombros tensos” e entender uma forma diferente de se mover, de existir no mundo. Por cima de um som limpo, divorciado das influências eletro do k-pop contemporâneo (no melhor estilo que a nossa Sam chamou de “Música do Taemin™”), ele soa como um jovem George Michael em “Faith” ou “I Want Your Sex”, pedindo que depositemos nossa confiança em uma forma diferente de popstar.

O que entra em cena nos projetos seguintes, de Press It a Move e Want, é uma preocupação melódica que ainda não existia no Ace. O uso do agudo “aéreo” (esse é o único adjetivo possível para descrever o tom da voz dele nas notas mais altas) de TAEMIN, e a aparição de baladas mid-tempo que incorporam influências inesperadas ao seu som elegante (pense na guitarra espanhola de “Day and Night”), criam uma identidade musical muito mais definida, e que se presta muito mais à revolução que ele estava se preparando para implementar.

Há algo na música de TAEMIN que deve muito ao apelo subversivo e à ênfase na guia emocional que orientou a fase áurea da carreira de Janet Jackson. Move é o Control dele, mergulhado em proposições psicossensuais, e a construção melódica das canções do disco reverbera ainda no Want, uma continuação espiritual em todos os sentidos – note como o “hot-hot” da faixa título deste último repete e reflete o “you’ve got-got the rhythm” de “Move”.

O Never Gonna Dance Again é mais difícil de entender apenas como ato musical, porque suas ideias visuais são mais marcantes do que as anteriores do artista. “Criminal” e “Idea” são os MVs mais carregados de simbolismo da carreira de TAEMIN, em seu abuso de imagens duplicadas, especialmente do próprio cantor – uma separação de duas personas que parece ter começado a fazer mais sentido para ele conforme a dimensão de seu impacto e importância no mercado coreano e global se tornou mais clara.

O que TAEMIN faz é desdobrar essa separação dentro do texto que já esteve construindo antes. Em meio ao desafio aos conceitos de masculino e feminino, ele inclui também um desafio às normas de uma indústria (a do entretenimento como um todo, incluindo a ocidental) que desumaniza e desconsidera a saúde mental daqueles que elege como símbolos, como ídolos. Não é tão difícil, porque desmontar as duas coisas é uma questão de sobrevivência para quem quer que ouse desafiá-las.

“Me conte sobre sua dor/ Não quero alguém sem sentimentos/ Vou te levar para o paraíso/ Você vai sentir o paraíso”, canta ele em “Heaven”, em um refrão que contém provavelmente a melhor ideia melódica da carreira solo do cantor. Como em “Advice”, é a proposição de um mundo mais permissivo e sensível com a individualidade de cada um, recebendo expressões radicais de personalidade, desassociadas – ou conscientes, mas abertamente contraditórias – de expectativas sociais.

Um reino de incerteza

É impossível saber de fato se o TAEMIN que vai voltar do seu alistamento militar dará seguimento ao mesmo texto singular que construiu com o passar dos anos até Advice, mas parece-me difícil imaginar que não. Independente das mudanças que ele possa passar pessoalmente, me parece que ele abriu um espaço em sua arte para expressar quem é dentro de um propósito muito intrinsecamente seu, cuja aura é de puramente imutável.

Excepcionalidade tem dessas: uma vez que você sente o gosto dela na sua boca, não dá para voltar atrás. Abrir mão de um texto de tanto impacto e importância por uma multiplicidade mais superficial, mais passageira, é uma troca que simplesmente não faz sentido. E por um texto tão transformador quanto o de TAEMIN, vale a pena esperar quase dois anos.

2 thoughts on “Revolução de um homem só: a carreira solo de TAEMIN é um dos textos fundamentais do pop contemporâneo

  1. Nossa! Muito bom o texto. Eu sempre falei isso, existem outros cantores solos que amo no kpop, que cantam demais! que fazem música boa que eu amo; mas o que o Taemin faz é música com intenção e isso torna ele um artista muito mais interessante para mim. Que me dá muito mais prazer de acompanhar.

    Ah, só uma nota, a mulher que dançou com ele em MOVE se chama Koharu e não Hokaru como está escrito. <3

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