Irene e Seulgi - Queerbait no k-pop
Análises

Não existe queerbaiting no (k-)pop. Todo (k-)pop é queer.

O pop como o conhecemos hoje foi codificado, encarnado, transformado em filosofia, por um homem gay – e, mais do que isso, um homem cuja sexualidade influenciou de maneira decisiva a arte que produzia. Falo de Andy Warhol, é claro, o homem que transformou para sempre a história da arte ao levar adiante (e além) o legado de outros artistas que haviam ensaiado uma revolução antes dele.

O livro Andy Warhol: A Biography, de Wayne Koestenbaum, reconta uma conversa do artista com o cineasta Emile de Antonio, na qual Warhol reclamava da dificuldade de ser aceito no mundo da arte nova-iorquina pelo simples fato de ser um homossexual fora do armário. Nomes anteriores da pop art, como Jasper Johns e Robert Rauschenberg, também eram LGBTQIA+, mas não falavam disso abertamente, como o colega fazia.

Quando Antonio disse a Warhol que ele “dava pinta demais”, e por isso era rejeitado nesses círculos, o artista reagiu exatamente da forma que qualquer conhecedor de Warhol esperaria. “Não tinha nada que eu pudesse fazer sobre isso, e era verdade, então decidi que não ia me importar. Isso [sua feminilidade, ‘dar pinta’] não era algo que eu queria mudar, de qualquer forma, além de achar que não ‘deveria’ querer mudar… As outras pessoas que mudassem suas atitudes, não eu”, escreveu ele.

Nas décadas seguintes, Warhol produziu um legado artístico ferozmente queer. Ele imortalizou ícones como Liza Minnelli, Judy Garland, Marilyn Monroe e Elizabeth Taylor em retratos que epitomizaram e, no processo de retroalimentação próprio do procedimento pop, eternizaram a adoração gay por ícones culturais ultrafemininos; produziu filmes – de Blow Job a Lonesome Cowboys – que encaixaram imagens de sexo queer no imaginário popular e no cânone artístico, mesmo que fossem obrigados a estrear e serem exibidos apenas em cinemas pornográficos gays; e desenhou e fotografou homens nus em trabalhos que foram repetidamente rejeitados por galerias de arte da época e hoje vendem por milhões.

Warhol não criou o pop. O pop, no sentido de um elemento do inconsciente coletivo, existe provavelmente desde que o ser humano começou a fazer arte. O pop, no sentido de forma artística, deu seus primeiros passos décadas antes de ele começar a produzir, com grupos dadaístas que buscavam um novo desdobramento, uma atualização, do movimento. O que Warhol fez, no entanto, foi elevar o pop a uma influência estética e cultural inescapável, ajudá-lo a tomar o seu lugar óbvio como expressão artística de um novo mundo, ou de um mundo que é perenemente novo.

Warhol criou o pop como entidade renovável que conhecemos hoje, não só porque o inseriu em uma lógica de produção capitalista, mas também porque o entendeu como um espelho infalível, um procedimento perfeito para fazer sentido – ou confundir ainda mais – da sociedade de qualquer época em que ele é produzido. Warhol (e outros artistas, é claro, mas principalmente ele) fez do pop algo diferente de um movimento artístico: ele é uma forma de arte imortal, “inidatável” (se me permitem o neologismo), não só eternamente viva, como eternamente vital.

Da forma como o pop é feito, todo trabalho desde Andy Warhol é descendente direto de Andy Warhol. As codificações que ele colocou em suas obras foram decantadas e reimaginadas de milhões de maneiras por milhões de outros artistas desde que foram colocadas no mundo, dando à luz obras e significados diferentes que, por suas vezes, são decantadas e reimaginadas de milhões de maneiras por milhões de outros artistas depois disso. É um processo eterno de transmutação e variação a partir dos mesmos elementos.

E um desses elementos, irrevogavelmente, é que o pop é uma arte queer. Warhol a posicionou assim, mas a sua ideia do que constitui e entende-se por uma identidade queer foi expandida e reenquadrada por aqueles que vieram depois dele – mulheres lésbicas que fizeram incluir o erotismo feminino e os códigos específicos da lesbiandade nesse glossário; indivíduos que desafiam prescrições comportamentais e visuais de gênero que eternizaram a androginia como elemento essencial do pop; pessoas transgênero que buscaram levantar suas narrativas e sua particular expressão em obras da cultura popular.

Em sua identidade queer, mas também em muitos outros aspectos, o pop é como um dicionário: em constante expansão e ajuste para acompanhar a expressão contemporânea – mas, fundamentalmente, falando sempre a mesma língua.

Daí que me incomoda um pouco ouvir sobre queerbaiting no k-pop (e no Ocidente também), ou ainda ler que as pessoas que acompanham o k-pop não deveriam apontar conteúdo LGBTQIA+ não-explícito, nas entrelinhas, nas obras de seus artistas preferidos. Me parece antitético às próprias raízes da arte pop ouvir que isso é “desrespeitoso” para com os artistas, ou ainda que o público LGBTQIA+ está “se contentando com migalhas” quando encontra na arte qualquer texto queer que não é uma confirmação pessoal, direta e inequívoca de identidade.

É claro que é preciso lutar por mais representação explícita na mídia. É preciso lutar, especificamente, em um contexto social, para que artistas pessoalmente queer não se sintam pressionados a simular cis-heterossexualidade ou evitar a discussão de suas identidades em público. Para que, mesmo para aqueles que realmente desejam manter essa parte de si em privado, isso seja verdadeiramente uma escolha, e não uma obrigação. Nesse cenário ideal, sem dúvida, muitos artistas poderiam modelar existências queer que ajudariam seus fãs a se verem espelhados de maneira mais consistente – e cada Holland ou Aquinas na indústria do k-pop é uma vitória nesse sentido.

Espanta-me, no entanto, que tanta gente ache que essa luta precise vir à custo da negação da identidade fundamentalmente queer do pop como um todo, e portanto do k-pop especificamente. Parece-me, acima de qualquer coisa, um desrespeito fundamental ao fato de que a tradição de arte especificamente, penetrantemente, afiadamente LGBTQIA+ disparada por Warhol confortou e salvou muita gente. 

O abraço da comunidade queer ao pop, e principalmente à música pop, não é acidental – ele acontece porque reconhecemos no pop os nossos códigos, os nossos escapes, as nossas vivências, as nossas obsessões. E os reconhecemos porque eles estão lá, desde os primórdios do fazer pop humano. Dizer que eles não estão é ou de uma ignorância histórica monumental (o que é perfeitamente perdoável), ou de um descaso histórico profundamente incômodo (o que é menos compreensível).

Da próxima vez que você, leitor LGBTQIA+, perceber subtextos – ou, sejamos sinceros, bem mais do que isso – queer no novo MV do seu grupo preferido, fique tranquilo. Você não está viajando, ou vendo coisas,ou projetando a sua necessidade de representação em um local onde ela não existe: você está simplesmente prestando atenção.

Essa arte é sua. Desde o princípio, e inextricavelmente, ela é sua. Pouco importam as verdadeiras intenções dessa ou daquela empresa (a infame busca pelo pink money), pouco importa se o artista é de fato LGBTQIA+ ou não, pouco importa se o subtexto é intencional ou acidental. Não só a arte é muito mais do consumidor do que é do artista, e portanto você tem o direito de apropriá-la e interpretá-la como quiser (mas essa é uma outra discussão, para outra hora), como a história sempre fala e sempre vai falar mais alto do que qualquer indivíduo.

E, se a história nos diz alguma coisa sem nenhuma sombra de dúvida, é isso: o (k-)pop é queer.

Andy Warhol em seu estúdio em Nova York, em 1983

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