Análises, Monólogos

NCT Dream brinda o porvir em Hello Future

O primeiro semestre de 2021 foi tomado em tempestade pelos dois comebacks do NCT Dream, sendo que o segundo foi com o repack álbum de Hot Sauce que se chamou Hello Future, um nome muito apropriado, já que cada faixa nova misturada às já conhecidas foram um brinde ao porvir e uma solidificação do que o fã pode aguardar para a carreira dos meninos.

Era maio quando Hot Sauce estourou nos fones ouvidos dos kpopeiros, dividindo opiniões sobre se ela era brilhante ou um completo desastre. No meu caso, (e como iremos falar dela em vídeo num futuro próximo) vou apenas dizer que ela foi a verdadeira cena de Easy A. Acho que você consegue imaginar qual sem nem clicar no link. Eu a odiei na primeira ouvida e logo em seguida virei a maior defensora da faixa.

Com um MV impactante, devo dizer que foi aqui que eu finalmente passei a ligar nome ao rosto de cada um dos meninos (antes, eu só sabia os que estavam no 127 e o filho do Donghae Jeno), de tão na minha cara que este comeback foi, e pra melhorar ainda mais as coisas, o álbum era ótimo. Dez faixas de entrega absoluta do início ao fim em diferentes níveis de incrível.

Mark | Divulgação SM

Eu cheguei atrasada no k-pop, então quando comecei a engatinhar, o Dream já era um grupo consagrado com seu estilo em constante mudança tal qual seus membros que passavam pela puberdade. Embora lançamentos anteriores como BOOM e I don’t need your love fossem bons o suficiente para cativar o ouvinte e atrair novos fãs, pairava sobre eles uma incerteza que era consequência da constante tentativa da SM em emular o sistema de graduação que faz tanto sucesso no Japão.

As coisas mudaram em 2020, quando a empresa finalmente desistiu de graduar os meninos do Dream — cuja química é inegável, e sua forma mais poderosa sempre foi em sete, incluindo o onipresente Mark — e os transformou numa unidade fixa do NCT.

Foi esse Dream fechadinho que encontramos em Hot Sauce, e sua versão com alguns níveis a mais nos cumprimentou de novo ao lançar o repack Hello Future em junho deste ano, solidificando tudo que já sabíamos sobre eles e mais.

Muito mais.

A primeira coisa que chama a atenção em Hello Future é o contraste sonoro que a faixa título faz em comparação à anterior. Desde os primeiros segundos, somos pegos por uma surpresa que provavelmente não deveria existir (já que as fotos de conceito estavam dando mais do que dicas) e o efeito exclamação vem a cada linha entregue pelo ótimo balanço de rap e vocal do grupo.

Este equilíbrio fica bem evidente nas duas estrofes principais da música, mas talvez o primeiro destaque fique pro pré-refrão. O maknae (membro mais novo) Jisung tem cada vez mais mostrado seu potencial como all rounder e neste pré-refrão seus vocais trazem uma camada de suavidade à beleza das harmonias deste segmento.

Jisung, inclusive, teve um pequeno protagonismo durante toda era color rush que foi o combo Hot Sauce-Hello Future. Antes do lançamento do primeiro álbum, o Dream teve uma websérie com pinta de ficção realista que claramente é uma tentativa desesperada da SM de fazer seus meninos serem chamados pra fazer novela.

Jisung | Divulgação SM

Partes dessa série viraram teasers pra ambos os álbuns com snippets das demais faixas. Pro Hot Sauce, Dive into you, Diggity e Rainbow formaram uma pequena trilogia que poderiam muito bem ser lidas com temática LGBT+, mas não vou entrar neste mérito (este tópico foi bem elaborado pelo Caio num artigo recente, confiram). E para conectar um álbum ao outro, também temos o “capítulo bônus” de Life is still going on.

Como acontece com a maioria dos meninos, o papel de Jisung transitando entre vocal, performance e rap line fica cada vez mais na nossa cara a cada comeback, mas para mim, a ponte de Hello Future foi especial. Se eu fosse o tipo de pessoa que veste chapéus de alumínio, eu diria até que colocá-lo ali (cantando sobre enviar um recado para seu eu do futuro, abrir as asas e voar apesar dos problemas) tem um aspecto quase simbolista, mas também não quero entrar neste mérito porque tenho muito o que falar sobre este lançamento.

Elogiar os vocais de artistas da SM é quase um pleonasmo, né? Mas é porque nós sempre ficamos chocados com como eles cantam bem e todo comeback do Dream é a mesma coisa: eles têm os refrões harmonizados, as notas altas em momentos estratégicos, a assinatura vocal que você reconheceria em qualquer faixa.

Haechan | Divulgação SM

Então é claro que tenho que falar do Haechan, que tem mostrado um amadurecimento vocal impressionante desde que o NCT 2020 lançou o Resonance. Aos 21 anos, ele tem potência sem estourar os tímpanos dos ouvintes, e sua voz está tão limpa que dá até orgulho. Embora a distribuição de linhas não tenha sido perfeita, ela aconteceu até que bem na música título, então só repara a evolução do Haechan quem o tem observado com um pouco mais de atenção há algum tempo, então vou logo avisando que dá pra ver o brilho do rapaz como vocalista na faixa Life is still going on — uma das três novas lançadas no repack com aspectos de power ballad R&B anos 2000 que me deixou o puro suco de nostalgia.

Outro membro da vocal line que teve destaque neste comeback foi o Renjun, algo pelo qual os fãs vinham implorando a muito tempo. A baladaTM Be there for you foi a que mais teve holofote no Renjun e seus vocais lindíssimos (a faixa tem um vídeo ao vivo com o trio de vocalistas e é a coisa mais linda de ouvir), mas também dá pra ver muito destaque pra ele em Rainbow, cuja vibe de fim de show é ao mesmo tempo uma delícia e cheia de melancolia. Não à toa, o vídeo teaser com ela se chamava “The things I cherrish”, ou “as coisas que celebro” em tradução livre.

E pra não dizer que não comentei sobre o Chenle, é claro que eu precisava deixar a minha gongadinha habitual, né? Foi ele quem eu senti mais falta de ter linhas em Hello Future, e talvez a SM saiba deste vacilo, porque o menino está bem presente nas demais faixas do álbum, especialmente na que eu gosto de chamar de lo-fi Dream, ANL. Original do Hot Sauce, muito nela me lembra Flavors of Love do Monsta X, o que é um grande elogio porque eu amo essa música. Chenle tem um tom suave e um falseto limpo que foi usado de maneira excelente nesta faixa, e é por isso que continuo me perguntando por que não tem mais dele nas músicas título.

Chenle | Divulgação SM
Jeno | Divulgação SM

A marca registrada do Dream 7 — ou seja, o com Mark — é a base forte no hip hop, então a gente não seria nada sem uma faixa fedidinha que não fosse Hot Sauce, né? Countdown (3, 2, 1) preencheu este vazio ao lado de Diggity, que estava nos vídeos teaser com o subtítulo “The taste of pain”. Além de ter um dos melhores refrãos harmonizados do ano (harmonias no refrão já são ótimos normalmente, mas quando vêm em música fedida? Cinema poético), o vídeo pra esta faixa usou e abusou do potencial click-bait/thirsty trap do Jeno, então é uma pena que ele mal tenha 3 minutos de duração.

Minha faixa preferida dos dois álbuns, no entanto, é a maravilhosa canta-junto Dive into you. Eu acho que foi a primeira que favoritei no Spotify logo nos primeiros segundos, porque ela é tão boa?? Os primeiros acordes no melhor estilo Creed já eram suficientes, mas o refrão??

Sei que a gente vive falando de refrão vazio, mas ele é extremamente canta-junto, e não tem nada melhor que isso para o palco. Ouvir Dive into you (assim como Rainbow) dá muita, muita saudade de um show, e assistir as versões ao vivo que os meninos apresentaram acrescenta anos de vida na gente, é sério. Além disso, lembra o que eu falei no parágrafo sobre o Jisung sobre a maioria dos meninos conseguir explorar seus aspectos all rounder? A gente teve um monte de Mark vocalista nestes álbuns, mas como o Mark sempre tem linha, eu queria chamar a atenção pro center dessa era: Jaemin.

Ele foi um dos últimos que aprendi nome e o motivo é bem simples: ele nunca teve destaque suficiente pra capturar meu olhar como teve desta vez. BOOM foi a era do Jeno, I don’t need your love foi a do Renjun, Ridin’ era todinha do Jisung, mas o Jaemin? Passou batido… até agora. Tanto em Hot Sauce quanto em Hello Future, assim como em seus lados B, Jaemin não apenas teve linhas como também teve tempo de tela, impondo presença quando no centro da coreografia. Ele teve a maioria dos refrões, a coreografia de destaque e o ano foi dele. Simplesmente isso, o ano foi dele.

(em retrospecto, posso culpar Make a wish por isso, porque a criança aprendeu a ser insuportável bem ali, mas a gente já falou bastante de Make a wish no minisódio 10)

Jaemin | Divulgação SM

Um aspecto que aprecio no Jaemin é como ele faz a coreografia parecer simples, então quando ele está no centro até parece que vou conseguir imitar os gestos, considero pakas isso. Mesmo com a diferença de tom que Hello Future tem, ele vai dos momentos intensos aos delicados com muita graciosidade.

Inclusive, sendo honesta, eles de novo fizeram uma coreografia semi-acessível com gestos chaves pra gente dançar sempre que ouve a música. Não tem o mesmo chute na cara de Hot Sauce, mas ainda é o Dream com o qual estamos acostumados.

Tem uma coisa que Hello Future faz no seu meio-pro-final que tem sido menos comum de encontrar, embora ATEEZ e Cravity tenham feito algo semelhante em menor escala quando lançaram Deja vu e Veni, Vidi, Vici respectivamente: expandiram a ponte e fizeram do último minuto e meio da música o verdadeiro clímax ao simplesmente se negar a fazer o que era esperado.

Renjun | Divulgação SM

Pra começo de conversa, a ponte tem três momentos bem distintos que se complementam lindamente. Vemos mais uma vez o belo equilíbrio dos vocalistas e rappers a cada bloco de duas ou três linhas com Renjun e Jisung como seus condutores e não para por aí (no ponto dos clímax mais comuns, com o vocalista principal mandando Aquela Nota Alta junto de um último refrão impactante sendo jogado para o alto) porque okay, o refrão volta… e vai além.

Todas as vezes que você acha que a música vai acabar, ela continua construindo intensidade sem alterar sua base — o que é o mais importante. Tudo faz sentido e quando ela finalmente acaba (bons 40 segundos depois do que “deveria”), é de um jeito tão satisfatório que só seria superado por Key em Bad Love meses depois.

A fase color rush do NCT Dream veio com músicas excelentes, records de vendas e um total impressionante de 14 troféus em show de música, sendo 8 pra Hot Sauce e 6 para Hello Future. Eles brincaram com o sabor apimentado associado ao NCT como um todo e com a era paz-e-amor hippie num espaço de três a quatro meses e foram bem-sucedidos em ambos.

Não deveria fazer sentido, mas de alguma forma faz. O estilo hippie do MV de Hello Future combina com a faixa que transmite uma paz que vai além da barreira linguística. A gente entende na voz deles que este é um Dream seguro, pronto para o que está por vir — ou, mais que isso, de braços abertos para o que o futuro lhes reserva.

E se a popularidade que o número de vendas traduz for algum indicativo, aposto que o futuro que eles brindam não vai ser nada menos que brilhante.

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