KEY no clipe de "Bad Love"
Análises

“Nothing but bad love”: Quando homens falam de relacionamentos abusivos no k-pop

Na coreografia de “Bad Love”, melhor registrada no vídeo de performance da canção ou na primeira aparição de KEY para promovê-la no MCountdown, o integrante do SHINee faz um teatro curioso com a sua trupe de dançarinos. No início, eles parecem estar em compassos diferentes, em uma luta constante para decidir, entre si, quem tem o comando dos movimentos no palco. KEY dança de maneira frenética, expansiva, e os dançarinos giram ao redor dele, aparentemente (mas ensaiadamente, é claro) indispostos a seguir seus comandos.

A tensão que se instala ali, de uma forma quase subconsciente, absorve o espectador para este cabo de guerra, e a coreografia trabalha uma progressão divertida de sincronia entre artista e dançarinos. O momento chave vem no segundo verso, quando KEY se posiciona à direita do corpo de baile e, com as mãos, direciona os movimentos deles – formação que logo evolui para um “túnel” no meio do qual passa o artista, liderando cada par de dançarinos em um passo de dança diferente.

É performance pop como narrativa, e é parte da explosão de significado que foi “Bad Love”, uma obra tão detalhadamente concebida e apresentada que o seu texto se torna praticamente inescapável: KEY está falando de um relacionamento abusivo. Mais até, no caso dessa canção título, ele está falando da libertação de um relacionamento abusivo, de tomar o controle de volta e “domar” seus demônios e suas memórias como ele “doma” os dançarinos no palco.

Não há pedaço seu em mim”, diz o artista em uma parte do refrão da música, declaração catártica refletida também, nos últimos segundos, nas notas longas e doídas que soam como o exorcismo final do monstro “lindo, mas cruel” do qual ele fala durante toda a letra. É uma afirmação de identidade, e essencialmente de autoridade sobre si mesmo, que faz parte da recuperação de quem já foi controlado e definido por um parceiro.

Parte da genialidade do Bad Love, o álbum, é como ele começa com esse grito de liberdade para só depois nos conduzir pelo caminho tortuoso até ele. Nas canções seguintes, KEY e seus colaboradores recorrem várias vezes à imagem do sufocamento que faz parte da clausura (seja ela literal ou psicológica) do relacionamento abusivo – tanto “Yellow Tape” (“Você me tira o fôlego/ Não posso respirar/ Inspira, expira”) quanto “Helium” (“Garota, eu admito/ Você me enche como hélio/ Faz meus pulmões”) desenvolvem seus refrões nesse sentimento, literalizando-o em uma dificuldade de respirar expressada por melodias flutuantes que imitam um ritmo ofegante.

O disco acerta em cheio ao conflagrar a intensidade da paixão inicial com a natureza violenta do relacionamento. É dessa obsessão romântica, dessa necessidade do outro, tão intensa que borra as linhas do aceitável e do compreensível, que se cria o ambiente ideal para o abuso, KEY parece nos dizer. Daí também que, em “Hate That…” e “Saturday Night”, a obsessão continue após o fim do relacionamento, mostrando um apego sofrido à fantasia de um amor que nunca realmente existiu.

Você me machucou na frente de todos/ Por favor, me cure quando estivermos sozinhos”, pede o artista em “Saturday Night”, no que talvez seja o verso mais cru do álbum todo – diga-se de passagem, em uma das duas canções que o próprio KEY escreveu. A música, disfarçada de banger disco (em uma dualidade que Robyn aprovaria), é um apelo desesperado, mas também desesperançado, por algo que negue a realidade vivida, e marcada de forma indelével no corpo e na mente, de quem já esteve em uma relação abusiva.

Já a beleza de “Eighteen (End of My World)”, segunda faixa de composição própria do Bad Love, é justamente acompanhar enquanto KEY se reencontra consigo mesmo. Escrita como uma carta ao seu eu mais jovem, a canção incentiva o KEY adolescente a “sonhar e voar alto”, mesmo com todos os erros que ele admite ter cometido pelo caminho – tantos que às vezes é até difícil encará-los. A virada lírica da bridge, em que o cantor diz ao seu jovem alter-ego que “adoraria ver o fim do seu mundo com ele”, emociona porque um abraço tão radical de si mesmo é um ato de coragem suprema em qualquer circunstância, e um passo em direção à verdadeira cura para alguém que carrega as cicatrizes que KEY expôs durante o álbum.

No ciclo que se fecha perfeitamente na obra-prima que é o Bad Love, o grito de libertação que finaliza a faixa título, lá no começo, só parece mais rico, mais importante e mais significativo depois de ouvir o disco todo. Mas, além de ser brilhante por si só, o álbum de KEY se provaria também sinalizador de uma convergência temática interessante, no k-pop, nos meses seguintes ao seu lançamento. 

“Make me cry, cry, cry”

Depois da despreocupadamente sexy “Feel Like”, que marcou o seu início do ano, o solista WOODZ retornou em outubro (algumas semanas após o lançamento do Bad Love de KEY) contando uma história muito mais perturbadora – no MV de “Waiting”, ele aparece enclausurado em um apartamento escuro, decorado com as reminiscências de um relacionamento, de polaróides com rostos apagados a prendedores de cabelo e rolhas de vinho usadas.

O momento climático da obra, no entanto, vem quando a mulher de quem WOODZ está se lembrando bate à sua porta. Vendo-a pelo olho mágico, o cantor exibe uma expressão de choque e desaba diante da entrada do apartamento, se contorcendo no chão enquanto ela tenta forçar a maçaneta. Filmado em ângulos inclinados que comunicam o seu quase ataque de pânico, WOODZ acaba abrindo a porta – em take reminiscente de outro, no meio do MV, em que ele apareceu deitado no chão, desolado, enquanto a sua parceria ia embora. Não vemos o que o artista encontra do outro lado, mas ouvimos um disparo de arma de fogo. 

Na letra, ele se coloca na mesma posição de fragilidade que encarna no vídeo: “Oh, por que você me enlouquece?/ Por que está fazendo isso comigo?/ Me fazendo sangrar/ Eu estou tão insano/ Tento te apagar, mas você me faz chorar, chorar, chorar”. Cercado por baixos e percussões marcantes, rasgados por guitarras aqui e ali, combinando com o clima de alt-rock anos 90 do restante do disco, “Waiting” é uma canção sedutora, envolvente, sim, mas não sensual. Ela é machucada demais para ser descrita assim.

Outra coisa que ela tem em comum com “Bad Love”? Em ambas, no pós-refrão, os cantores abrem mão da verbosidade das letras e deixam os sentimentos transbordarem em vocalizações desenhadas para serem gritadas a plenos pulmões por quem ouve, do outro lado do diálogo que compõe toda obra de arte. E não demoraria mais do que uma semana para “Waiting” encontrar suas próprias sucessoras temáticas naturais.

Em 12 de outubro, o DJ e produtor Raiden fez sua estreia solo com “Love Right Back”, cantada por TAEIL (NCT) e o rapper IIBOI. Carregada por teclados e cordas exultantes, a canção revela as delícias de se ver livre de um relacionamento tóxico, com versos afirmadores como “eu tomei coragem e tirei meus dois pés do chão/ eles disseram que eu ia cair/ e que sentimento bom”, cortesia de IIBOI, e um refrão saboroso em que TAEIL declama que, se seu parceiro “ama desse jeito”, ele “quer o seu amor de volta”.

Um mês depois, Mark Tuan (GOT7) lançou o solo “Last Breath”, que retoma a imagem recorrente de sufocamento abundante no Bad Love. Toda cantada em inglês, a canção passeia pelo território familiar do R&B contemporâneo – a semelhança sônica com “Stay”, de The Kid LAROI e Justin Bieber, não é coincidência -, mas traz um apelo claustrofóbico em sua letra: “Tenho um último suspiro em mim/ E sei que você quer arrancá-lo do meu corpo/ Você está com suas mãos na minha garganta/ Então só respiro quando estou sozinho”.

“Baby, I’m preying on you tonight”

Essa conversa densa e multiconectada entre lançamentos tão próximos em termos de data, dentro de um mesmo ambiente cultural (o k-pop), e englobando exclusivamente artistas masculinos, inevitavelmente faz pensar sobre como nossos popstars homens tradicionalmente lidam com narrativas de abuso – e não é preciso lá tanto insight para descobrir que a resposta é que eles não costumam lidar de forma muito saudável com elas.

Exemplo egrégio e, acredito, simbólico da forma como homens cantam sobre abuso no pop é “Animals”, do Maroon 5. Incluída no disco V, de 2014, a canção traz o vocalista e compositor Adam Levine cantando sobre a sua paixão visceral por alguém que nega seus avanços e o enreda no que ele chama de mentiras para impedir que o suposto relacionamento vá adiante.

A fundação da letra são as comparações do envolvimento entre os dois com o comportamento instintivo associado aos animais. “Talvez você ache que pode se esconder/ Posso sentir seu cheiro há quilômetros de distância/ Exatamente como um animal”, canta Levine em um dos refrões, completando em outro verso que os dois são como inimigos, mas “se dão bem quando [ele] está dentro [dela]”.

No clipe, enquanto isso, o vocalista interpreta um açougueiro obcecado por uma cliente, vivida por Behati Prinsloo (na época já sua esposa na vida real). Seguindo a deixa da letra, ele persegue a modelo pelas ruas e até tira fotos dela dormindo sem que ela perceba, além de fantasiar cenários sexuais banhados de sangue e aparecer deitado ao lado dela, tentativamente estendendo a mão para tocá-la, em algumas cenas.

A discussão mais óbvia a se ter aqui é sobre a sexualização de uma situação de abuso, é claro. Em “Waiting”, por exemplo, WOODZ brinca com ritmos embriagantes para evocar a sedução e a paixão que precedem a toxicidade, mas cria um mundo visual sombrio para contrastá-los. É apropriado: em uma situação de abuso, sexo nunca é de fato sobre sexo, e sim sobre poder, sobre controle – e não há nada de sensual em estar sob esse tipo de controle diante de um parceiro. 

Em contraste direto com isso, o clipe do Maroon 5 se demora em imagens lúridas, o que (crédito devido ao diretor, cujo trabalho foi interpretar a canção) conversa diretamente com a forma como “Animals”, a canção, trivializa os atos de abuso do seu narrador. É importante notar que cultura pop não existe em um vácuo, e o mundo em que todas as canções que citamos neste texto foram escritas ainda justifica, encobre e até incentiva, sistemicamente, o abuso de mulheres por parte dos homens em sua vida.

“It’s just the way you burn me” 

“Animals” é, portanto, sintoma, e não doença – mas isso só faz de “Bad Love”, “Waiting”, “Love Right Back” e “Last Breath” quebras de molde mais fascinantes e mais cruciais. Porque, em um mundo que justifica, encobre e incentiva homens perpetuadores de abuso, o homem vítima de abuso também se vê perdido socialmente. A notória falta de recursos institucionais para amparar homens que sofrem abuso psicológico, físico e sexual deriva, fundamentalmente, de uma falta de diálogo social sobre a existência e a experiência desses homens.

Na criação doutrinária da masculinidade, não há espaço sequer para que o conceito de abuso possa tomar forma. O que é abuso quando, a vida toda, a ideia de impor dominação sobre o outro foi colocada como a lógica fundamental de todos os seus relacionamentos? Se entender como vítima de abuso, nesse contexto, é renunciar a um pilar fundamental da masculinidade, construído em cima de ideias como a de que o homem “sempre quer sexo”, ou que a suposta primazia física do homem sobre qualquer parceiro o torna incapaz de ser abusado.

A fragilidade pulsante de uma “Saturday Night” rompe com todas essas ideias de maneira decisiva – e obviamente não é à toa que seja o k-pop fazendo isso. Em uma perspectiva histórica, a indústria musical coreana sempre esteve à frente do seu tempo quando se tratou da transgressão de estereótipos masculinos e de dar um espectro de expressão emocional mais amplo para seus astros (paradoxalmente, não para a maioria de suas estrelas, muito mais confinadas a uma feminilidade sufocante – mas essa é uma outra história e, de novo, cultura pop não existe em um vácuo).

O fato é que, para quem viveu situações semelhantes às descritas por KEY e seus colegas de “bolha temática” deste segundo semestre de 2021, ouvir e ver essas narrativas tomando forma dentro do cenário pop é importante pelo mesmo motivo que arte sempre é importante nesse mundo – para espelhar, moldar, e simplesmente fazer companhia, às nossas próprias histórias.

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